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e depois? Lembro-me do dia da Revolução como se o estivesse a viver neste momento. A minha avó levou-me para o local onde a carrinha devia me ir buscar para a escola mas passou à pressa a dizer para ir-mos para casa e não saír-mos. No Dafundo toda a gente corria e perguntava-se notícias a quem passava, aos vizinhos, a quem estava à janela. No rádio apenas se ouvia marchas militares e na televisão passou um episódio da Família Partridge e um do Viver no Campo. Este último de morrer a rir.
À medida que o dia passava todas as crianças estavam na rua a brincar aos “cóbóis” e a dizer “os gajos que venham que a malta mata-os a todos. Fomos para a marginal com as nossas pistolas de fulminantes “meter medo aos carros do exército e da polícia que passavam. Metiam-se com a PIDE podiam-se meter mas connosco íam recambiados. Foi um dia “do catano”!
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“… Isto é o fim do Mundo”.
Pivot
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O general Garcia Leandro publicou no Expresso, no sábado passado, uma espécie de protopronunciamento militar deveras interessante.
Em substância, o general diz que o país está minado pela corrupção e pelo mau governo dos políticos e que só não avança para encabeçar um movimento de indignação, conforme muito solicitado, porque vivemos hoje na União Europeia - onde estas aventuras venezuelanas deixaram há muito de ter viabilidade.
Mas essa não é, em boa verdade, a única razão que trava o general nas suas generosas intenções, se é que ele não o sabe: a outra razão é porque o país acolheria hoje com uma gargalhada devastadora qualquer ridícula tentativa de pronunciamento militar.
Com a extinção do Conselho da Revolução, algures na década de 80, livrámo-nos de vez da tutela militar e já ninguém, nem a novíssima geração, leva a sério um militar que queira salvar a pátria.
Aliás, o próprio texto do general Garcia Leandro - confirmando que os textos de justificação dos pronunciamentos militares jamais ficarão para a história da literatura universal - é, em si mesmo, incapaz de arregimentar até um quartel de bombeiros, tão frouxas e tão confusas são as razões aduzidas.
A corrupção é, de facto, um problema - aqui e em muitos outros lugares. Infelizmente, como o general deve saber, entre nós, nem os militares lhe escapam.
Temos um alto oficial da Armada, durante anos responsável técnico pelas compras do material de guerra do ramo, preso sob suspeita de corrupção.
E, da compra dos aviões A-7 até à dos submarinos, não há razão alguma para acreditar que, se corrupção houve, os militares envolvidos nos negócios não molharam também a mão na massa.
No que toca a gastos de dinheiros públicos injustificados, os militares têm muitas contas a prestar ao país.
Todavia, o que diz o general Garcia Leandro é aquilo que muitos pensam, e não apenas a rua.
O facto de ser general não o torna mais qualificado do que qualquer outro nos seus julgamentos nem lhe dá o direito a querer encabeçar um movimento de indignação, seja isso o que for.
Restam as causas de indignação, que, essas sim, são reais e poderosas.
Recentemente, também o novo bastonário dos advogados veio agitar as águas turvas do regime denunciando alto e bom som coisas que todos sabemos serem rigorosamente verdadeiras: que há advogados que fazem política no Parlamento e negócios com coisa pública cá fora; que há ex-governantes que saltam do Estado directamente para empresas com que antes negociaram em nome do interesse público; que há uma justiça para ricos e outra para pobres e por isso é que não há um único poderoso atrás das grades, embora não faltem motivos para tal.
Caíram todos em cima do dr. Marinho e Pinto, chamando-lhe demagogo, vendedor de feira e acusando-o de denunciar a corrupção sem apresentar provas.
Num gesto inédito de insubordinação estatutária, o presidente do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados veio ameaçar o próprio bastonário com um processo disciplinar se não se calasse.
Todos fingiram entender que ele falava da corrupção - um mal universal, que não afecta apenas Portugal.
Piedosa mentira.
O que o dr. Marinho e Pinto denunciou foi o descarado tráfico de influências entre o político e o económico, o público e o privado, que, essa sim, é uma imagem de marca nossa.
Meia dúzia de ministros de qualquer Governo, de empresários privados, de gestores públicos e de poderosos escritórios de advocacia decidem entre si como é que o Estado vai gastar os milhões que gasta em obras públicas, como é que vai pagar os seus fornecimentos, como é que vai privatizar as suas empresas, em que termos vai negociar contratos de concessão, que excepções vai abrir para conceder direitos de construção em zonas de paisagem protegida.
Desde a gestão privada de hospitais públicos à concessão da exploração de pontes, passando pela construção do que quer que seja ou pela compra de armamento militar, não há orçamento que não derrape largamente, não há negócio que não termine com lucros muito além dos previstos para os privados e total impunidade para os gestores públicos que lhes deram causa. Contratar com o Estado português é sinónimo de lucro disparatado e risco nulo.
E isso não significa necessariamente que, algures no circuito, tenha havido alguém a deixar-se corromper para que a factura subisse.
Esse tipo de corrupção existe, mas a um nível menor, ao nível autárquico, por exemplo.
Aqui, do que se trata é da troca de favores e influências entre uma casta que controla os grandes negócios com o Estado.
Hoje, A faz um favor a B - entrega-lhe uma empreitada que vale milhões - e amanhã é a vez de B retribuir, contratando A para os seus quadros ou entregando-lhe por sua vez uma empreitada em que ele esteja interessado.
E no meio estão C e D, que funcionam como advogados e jurisconsultos de ambos os lados: tão depressa negoceiam em nome do Estado como em nome de clientes privados com o Estado, tão depressa dão pareceres a um como a outro e, não raras vezes, estão dos dois lados simultaneamente, em processos diferentes.
Necessidade obrigando, chegam a produzir doutos pareceres de sentido oposto em casos rigorosamente idênticos, em que só mudou o cliente que servem.
Não me admira nada que o dr. Marinho e Pinto tenha vindo desinquietar toda esta gente - ainda por cima se não se esquece de denunciar uma justiça que, pela inércia e pelo facilitismo, pactua com aqueles que têm a possibilidade material de fazer arrastar os processos em tribunal até que eles morram de podridão e esquecimento.
O mal causado não consiste apenas no desperdício de dinheiros públicos ou na instalação de uma cultura de impunidade e batota, que desmoraliza o país são.
Uma das maiores causas para o atraso endémico de Portugal é esta chamada iniciativa privada que domina os negócios de milhões mas que não sabe sobreviver sem os seus três factores de êxito: salários baixos, offshores para tratar do Fisco e negócios garantidos com o Estado.
Temo só de pensar que vem aí o TGV e um novo aeroporto, onde um país pobre e economicamente estagnado, um país a quem tantos sacrifícios têm sido pedidos em nome do combate ao défice vai atirar pela janela milhões e milhões em trabalhos extra, comissões a intermediários, honorários de consultadoria externa e de pareceres e todas as demais alcavalas que sempre acompanham cada empreitada pública.
Foi assim com o CCB, a Ponte Vasco da Gama, o Túnel do Marquês, o Hospital Amadora-Sintra, o Casino de Lisboa oferecido ao sr. Stanley Ho (edifício incluído!) e tudo o mais, tudo rigorosamente, a que o Estado deitou mãos.
Farto de assistir a este espectáculo decadente e impune, legitimado pelo exemplo que vem de cima, grande parte do país já percebeu que a regra é exigir do Estado privilégios e dinheiro fácil.
A outra parte, se não acredita nem deseja militares salvadores, só lhe resta isto: indignar-se e chamar os bois pelos nomes.
Miguel Sousa Tavares
Fonte: Ponte do Sor
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Através da análise de documentos da época, Moisés Silva Fernandes verificou que altos responsáveis políticos do Reino Unido, Austrália, Estados Unidos da América e Nova Zelândia tiveram dois encontros em 1963, em Washington, onde «chegaram a acordo sobre a incorporação de Timor-Leste, numa política de apaziguamento em relação à Indonésia», afirma o investigador.
“Estes encontros foram secretos, Portugal nunca foi informado de nada”, adianta.
Um dos documentos analisados por Moisés Silva Fernandes é um telegrama remetido em 13 de Fevereiro de 1963, pela embaixada australiana em Washington para o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, em Camberra, no qual dava conta do acordo obtido pelas quatro partes, que nessa data se encontravam na capital norte-americana para a primeira das suas reuniões.
“Sobre Timor, todos concordámos que mais tarde ou mais cedo a Indonésia vai apoderar-se da parte portuguesa da ilha de Timor e todos à volta da mesa tornaram bem claro que os seus governos não estavam preparados para envolver forças militares para evitar esta situação”, lê-se no relatório da diplomacia australiana.
Noutro dos documentos encontrados pelo investigador português no Arquivo Nacional da Austrália, e recentemente abertos à consulta pública, consta um outro texto, escrito pelo embaixador da Austrália em Jacarta para o seu primeiro-ministro, Robert Menzies, datado de 7 de Março de 1963 e com a classificação top secret
«Devemos ao mesmo tempo convencer os indonésios que não teremos objecções a uma eventual incorporação do Timor português na Indonésia, desde que isto venha a ocorrer através do uso de meios aceitáveis», afirma o diplomata australiano, confirmando o acordo obtido em Washington.
Em Outubro de 1963, os quatro países anglófonos voltaram a reunir consenso sobre Timor-Leste em Washington. “O ideal do nosso ponto de vista seria que os portugueses cedessem Timor de boa vontade e de um modo que a transferência para a Indonésia não seja o resultado de uma agressão ou de um movimento cínico apaziguador para o Presidente (indonésio) Sukarno, lê-se num documento secreto de preparação da diplomacia londrina para o segundo encontro quadripartido e agora encontrado por Moisés Silva Fernandes no arquivo do «Foreign Office» britânico.
Para o investigador português, a interpretação destes novos dados é clara. «Onde outros podem ver ‘realpolitik’, eu vejo cinismo», comenta.
A Indonésia invadiu Timor-Leste em 7 de Dezembro de 1975, 12 anos após estas reuniões secretas, e, com o silêncio das potências ocidentais, ocupou o território até à consulta popular de 30 de Agosto de 1999, cujo resultado conduziu à independência do país asiático de expressão portuguesa.
Moisés Silva Fernandes vai revelar as suas conclusões, do ponto de vista académico, sexta-feira, 16 de Novembro, num seminário na Universidade de Oxford sobre assuntos portugueses e lusófonos. Fonte: Lusa/SOL
Mais tarde, planeia escrever um artigo sobre as suas revelações históricas a propósito de Timor-Leste, em inglês, na revista científica de estudos internacionais South European Society & Politics e incluir os novos elementos históricos, em português, num livro dedicado aos anos de 1974 e 1975 em Timor-Leste, a lançar em 2008.
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Decididamente o PS não passa de uma enorme desilusão para quem nele votou. Desde que o conhecido arrogante José Sócrates assumiu as rédeas do Governo temos vindo a assistir a um festival de prepotência contra os mais fracos do nosso País e contra quem por vocação e dever a defesa da nossa Pátria. O País assistiu imóvel ao que sucedeu aos militares e às suas famílias, ao ensino e à saúde e só pode concluir que o Governo apenas se respeita a si mesmo e à sua cor política. Este é um apanágio de todos os Governos que Portugal teve desde a República, mas este Governo tem sido de extremos.
Uma sociedade que se preza é aquela que protege os seus cidadãos naquilo que é mais elementar para a vida diária, a saber a educação, a saúde e o emprego. Agora digam-me o que é que o Governo tem feito nestes domínios? Absolutamente nada! Vemos os cuidados de saúde a deteriorarem-se a cada dia que passa, vemos empresas a fechar fraudulosamente, vemos as urgências a fechar e a população a ter de viajar dezenas de quilómetros para receber cuidados de saúde. Vemos igualmente o Governo a insultar os alunos, professores e as famílias e talvez sem dar por isso, a mostrar o seu desrespeito para com os Portugueses.
É urgente um novo 25 de Abril para correr com os políticos corruptos, para dar uma nova esperança aos Portugueses e lhes restituir o ânimo há muito perdido. Em 1974 eu tinha apenas 7 anos mas lembro-me de ver como as pessoas viviam esperançadas numa sociedade melhor, assisti a professores abdicarem das suas férias para irem integrarem as brigadas de alfabetização. Foi uma altura em que o País de repente acordou de uma noite que parecia sem fim. Hoje o País encontra-se de novo adormecido, ou acordado de forma passiva, resignado à vida de trabalho-televisão-centro comercial e gadgets para mostrar um status que se pensa merecer devido ao telemóvel que se tem ou à roupa que se usa. As “tias” são mais que muitas e é vê-las a passear no Algarve no verão ou nos shoppings à noite! No tempo de Salazar inventou-se as Noivas de Santo António e o concurso da Aldeia mais Portuguesa de Portugal, hoje há outras coisas…
O que se assiste em Portugal é o que eu chamo de crime institucionalizado.
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Foi o dia em que Portugal começou a sonhar…
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Todos sabemos que é necessário resolver de uma vez por todas o problema das listas de espera nos nossos hospitais, mas como cidadão português e belga tenho a certeza que a melhor maneira é adoptar o modelo Belga. Neste os Centros de Saúde não existem e todos os médicos são privados, podendo estes apenas cobrar os honorários estabelecidos pelo Estado. Aqui todos os cidadãos têm um seguro de saúde numa Mutual da sua escolha e se assim o desejarem podem fazer um seguro extra de saúde na Mutual ou numa companhia de seguros da sua escolha. Para dar uma ideia, eu nunca estive em listas de espera para duas operações aos olhos do meu filho nem a duas operações aos ouvidos da minha filha. Ambas foram executadas no prazo de uma semana após a constatação que tais operações eram necessárias.
Nas quantias que ainda são necessárias pagar pelo doente, os hospitais (todos geridos por entidades privadas), dão facilidades de pagamento chegando a atingir as 24 prestações. Aos menores de 12 anos, cada vez que necessitam de internamento hospitalar, pagam uma taxa moderadora entre os 25 e os 125 €. Nada mais. Isso evita que certos médicos cobrem quantias exorbitantes nas suas consultas. Uma visita a casa durante a semana custa 25 € que quase na sua totalidade são reembolsados pela Mutual no próprio dia mediante a apresentação do respectivo recibo ou dois dias depois por transferência bancária.
Se o Sistema Nacional de Saúde não dá resposta aos problemas dos Portugueses é porque os sucessivos Governos estão presos ainda à ideia que a Saúde é um direito, ideia essa que vem da altura do PREC. Já todos nos apercebemos que só privatizando a Saúde em Portugal é que acabarão as listas de espera e os cuidados de saúde serão administrados com eficiência. Privatização da Saúde sim porque a Saúde é um direito.
Quem é contra a privatização faz-me lembrar um certo deputado que tanto defende o ensino público e manda a filha para o estrangeiro estudar… Agora não me obriguem a dizer o nome porque ainda há dois anos ele o disse na RTP.
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Ninguém provocou tantos sobressaltos a Salazar como Hermínio da Palma Inácio – o lendário guerrilheiro dos mais ousados golpes contra a ditadura, o herói romântico que despedaçou corações no Brasil, em França, nos Estados Unidos. Hoje, pesam-lhe os 84 anos, a doença e as sequelas dos maus tratos nas prisões políticas do Estado Novo. Mas ainda sorri – e os olhos brilham quando recorda as aventuras que o tornaram numa verdadeira lenda.
Dia 10 de Novembro de 1961, sexta-feira. O Super-constellation da TAP Mouzinho de Albuquerque descola à tabela do Aeroporto de Casablanca, em Marrocos. Eram 09h15. O comandante José Marcelino e o co-piloto Raul Teles Grilo ganham altitude, alinham o avião na rota para Lisboa e permitem aos passageiros desapertar os cintos e acender os cigarros. Estava bom tempo. A viagem, de cerca de hora e meia, prometia ser calma. Mal sabia a tripulação que entre os 18 passageiros seguiam seis guerrilheiros, inimigos jurados do regime, chefiados por Palma Inácio.
A calma a bordo foi interrompida mal à meia hora de voo. Hermínio da Palma Inácio entra de surpresa pela cabina de pilotagem – e aponta o revólver à cabeça do comandante: “Isto é uma acção revolucionária. Não quero fazer mal a ninguém” – diz.
Nunca, na história da aviação comercial, um avião fora tomado no ar. O plano dos revolucionários é arriscado: pretendem seguir na rota para Lisboa, simular a aterragem na Portela e voltar para trás, em voo rasante sobre a capital, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, para lançarem 100 mil panfletos com apelos à revolta popular contra a ditadura. Aterravam sãos e salvos em Tânger – onde Palma Inácio e companheiros esperavam asilo político.
O co-piloto Teles Grilo, o mecânico-chefe António Coragem, o mecânico de voo Alberto Coelho não disseram palavra. Apenas o comandante Marcelino, ameaçado pelo revólver, tentou com serenidade demover o guerrilheiro. Disse que o avião não tinha combustível para regressar a Tânger. Mas Palma Inácio, que era mecânico de aviões e tirara nos Estados Unidos a licença de piloto de linha aérea, estava seguro do que fazia. Exigiu os registos de voo do Super-constellation – e verificou que os tanques tinham sido atestados em Casablanca. Havia gasolina à farta. O comandante tentou outro truque: “Como é que vai lançar os papéis? Eu não posso abrir as janelas do avião” – disse José Marcelino. A resposta de Palma calou-o: “Pode, pode. Voa o mais baixo possível, despressuriza as cabinas e abrimos as janelas de emergência.”
Palma Inácio tinha a situação dominada. Lá atrás, a aventura também não podia correr melhor. Os outros cinco revolucionários nem sequer foram obrigados a levantar a voz e a mostrar as armas. O comissário de bordo Orloff Esteves e as duas assistentes, Maria del Pilar e Luísa Infante, aceitaram participar naquele momento histórico – e até ajudaram a lançar os panfletos. Nem todos os 13 pasageiros (americanos, espanhóis, belgas e dois portugueses) compreenderam que o avião fora tomado de assalto: só ficaram a saber depois da aterragem em Tânger.
A cerca de meia hora de Lisboa, momentos antes de iniciar os procedimentos de descida, o comandante Marcelino contacta a torre de controlo – e recebe autorização para aterrar na pista 05. Faz a aproximação – mas, no último momento, acelera os quatro motores a hélice: o avião ‘borrega’ sobre a pista, ganha altura e afasta-se do aeroporto.
José Marcelino volta a comunicar com a torre – e tenta explicar ao controlador, por meias palavras, que a bordo o obrigam a fazer um voo rasante sobre Lisboa e outras cidades a sul. “Repita lá?” – dizem-lhe da torre. A comunicação é interrompida pela voz de um general da Força Aérea, Costa Macedo – que pilotava um monomotor, percebeu tudo e deu o alerta. Minutos depois, dois caças F-84 levantam voo da Base de Monte Real: descolam com ordens para abaterem o avião da TAP caso não conseguissem obrigá-lo a aterrar em solo português.
O Super-constellation iniciou então um perigoso jogo do gato e do rato. O avião teria de voar baixo, a escassos 100 metros de altura, para fugir aos radares e iludir os caças. A manobra era perigosa, só ao alcance de pilotos de elite.
Os seis revolucionários tinham levado 100 mil panfletos, impressos em fino papel de seda, na bagagem de mão. O avião passou a rasar a estátua do Marquês de Pombal, sobrevoa a Baixa, guina sob Alcântara. Uma chuva de papéis cai sobre Lisboa – o mesmo no Barreiro, Setúbal, Beja, Faro. Cem mil panfletos voaram das janelas do avião. A missão estava cumprida.
O Super-constellation, como estava previsto, aterrou no Aeroporto de Tânger, em Marrocos, às 12h50 de 10 de Novembro, sexta-feira. A operação mereceu honras da Imprensa internacional – era o que os revolucionários pretendiam. Salazar espumou de raiva.
OS ‘SEIS’ MAGNÍFICOS
O ‘comando’ revolucionário que executou o desvio do avião era constituído por seis portugueses asilados políticos no Brasil. Foram eles: Hermínio da Palma Inácio, Amândio Silva (hoje, director da organização privada Mares Navegados, que trabalha na promoção da cultura portuguesa no Brasil), Camilo Mortágua (agora estabelecido no Alvito, Alentejo, como empresário), João Martins (proprietário de um restaurante em Bruxelas), Fernando Vasconcelos (residente em Brasília) e Helena Vidal (já falecida). Helena, que era casada com Fernando Vasconcelos, estava grávida na altura da operação revolucinária. Ela entrou a bordo com as cinco pistolas presas à barriga por uma cinta. Palma Inácio subiu a bordo com o seu inseparável revólver escondido na meia.
SUSTO NO MAR DO ALGARVE
Após ter sobrevoado Faro, onde largou a última carga de panfletos, o comandante Marcelino continuou a voar a baixa altitude sobre o mar para não ser apanhado pelos radares. Estava uma bela manhã de Outono. Os pilotos avistaram dois navios de guerra. Só havia uma maneira de fugir à artilharia: mergulhar até meia dúzia de metros da linha água e passar entre os dois – e foi isso mesmo que fez José Marcelino. Já em Tânger, quando o avião aterrou, todos brindaram ao êxito da operação com o champanhe que havia a bordo. “Eu tratei-os bem”, recorda o comandante. Apanhou um mês de suspensão. A PIDE desconfiou que ele estava ‘feito’ com os ‘subversivos’. Marcelino não devia ter feito este voo: trocou de avião porque andava caído pela assistente de bordo Luísa Infante e queria ir com ela para Marrocos. O romance deu em casamento – e dura ainda hoje.
GALVÃO E DELGADO, OS REVOLUCIONÁRIOS DESAVINDOS
Quando foi lançado o assalto ao avião da TAP, o capitão Henrique Galvão e o general Humberto Delgado, os líderes da oposição não comunista, estavam irremediavelmente zangados. Ambos no exílio em São Paulo, no Brasil, tinham planos distintos, mas partilhavam os mesmos objectivos: derrubar o Estado Novo. Em finais de Setembro de 1961, empurrados por apoiantes comuns desesperados por acção, aceitam unir esforços e partem para Tânger. Enquanto Henrique Galvão congemina a ‘Operação Vagô’, Humberto Delgado conspira para um pronunciamento militar contra o regime em Portugal. Além do ódio a Salazar, os dois oposicionistas tinham uma outra coisa em comum: contavam, fosse para o que fosse, com um grupo de generosos revolucionários no exílio – como Palma Inácio, Camilo Mortágua, Amândio Silva, José Paulo Silva Graça, João Martins, Fernando Vasconcelos, Manuel Serra, Raul Marques. De acordo com os planos da ‘Operação Vagô’, Palma Inácio ficava em Tânger a fim de preparar o assalto ao avião a partir de Casablanca – enquanto o general Humberto Delgado partia sob disfarce para a Europa com o objectivo de preparar o pronunciamento militar.
O general seria ajudado por um grupo constituído por Manuel Serra, Silva Graça e Raul Marques – que entrou clandestinamente em Portugal com a missão de encontrar militares e civis dispostos a participarem no golpe. O desvio do avião teria como objectivo o lançamento de panfletos de apoio à intentona. O grupo de Manuel Serra encontra dificuldades em organizar a insurreição e, ao contrárido do que esperava Delgado, o Partido Comunista recusa o apoio. Serra ainda pede aos companheiros de Tânger para adiarem o desvio do avião. Mas Henrique Galvão não lhe dá ouvidos. Tânger estava enxameada de agentes da PIDE, a Polícia política portuguesa, que vigiava os revolucionários. A ‘Operação Vagô’ não podia ser adiada. Foi desencadeada em 10 de Novembro. Os panfletos foram substituídos: em vez de instruções como fabricar bombas, denunciavam as eleições fraudulentas para a Assembleia Nacional, marcadas para daí a dois dias, e apelavam à revolta popular. Manuel Serra só no final do ano conseguiu accionar a intentona, levada a cabo na madrugada de 1 de Janeiro de 1962, com o assalto ao quartel de Beja. O golpe, comandado pelo capitão Varela Gomes, foi um fracasso.
A ROTA DO VOO
1 - 9h15 - O avião da TAP descola de Casablanca rumo a Lisboa. Entre os 19 passageiros, um comando de seis revolucionários chefiado por Palma Inácio
2 - 10h15 - Palma Inácio entra na cabina de pilotagem e aponta o revólver de cano longo à cabeça do comandante José Marcelino
3 - A torre de controlo autoriza o avião a aterrar na pista 05 do Aeroporto de Lisboa. O comandante inicia a aproximação, mas no último momento afasta-se da pista e vira para Sul
4 - O avião voa perigosamente baixo. Larga, através de uma janela de emergência, milhares de panfletos sobre Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro
5 - Dois caças F-84 Sabre da Força Aérea descolam da Base de Montreal: têm ordens para abater o avião da TAP – mas não o encontram
6 - O comandante José Marcelino, um ás da aviação, escapa ás peças de artilharia de dois navios de guerra ao largo do Algarve
7 -12h45 – Aterra em segurança no Aeroporto de Tânger, três horas e meia depois de ter descolado de Casablanca
Manuel Catarino
Artigo no Correio da Manhã de hoje
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Quando eu andava na escola, muitas vezes chegava a casa revoltado por que nos pontos e nos exames por vezes eu era examinado em matéria que os professores não tinham dado. Devo dizer que esses pseudo-professores tanto a nível de exames nacionais como a nível de pontos ou provas globais muitas vezes se baseavam nos relatórios que eram feitos nos quais se dizía que na turma A essa matéria tinha sido dada mas não sabíam que nas turmas C, D e Z os alunos nunca tinham visto essa mesma matéria. Também tive professores que antes dos pontos e exames nos davam certa parte da matéria e depois o que saía era algo completamente diferente e que era do desconhecimento geral. Perante o desagrado geral dos alunos, os professores dizíam que era uma maneira de testar os alunos.
Vi essa incongruência na Escola Secundária de S. João do Estoril no início dos anos 80, em que mesmo os mesmos professores íam em diferentes ritmos nas diferentes turmas que leccionavam. Cheguei ao extremo de no 9° ano ter uma professora de História que acabou a matéria do 9° ano com os antecedentes da Primeira Guerra Mundial, quando o programa de História do 9° ano começava exactamente na Primeira Guerra Mundial… Na nossa turma e nas outras que essa professora leccionava, tinha dado a matéria de História do 8° ano mas o Exame Nacional foi sobre a matéria do 9°. No 11° ano tive um professor de Administração Pública que fazia os pontos de 0 a 16 valores mas nas notas finais não fez a reconversão para a escala de 0 a 20 valores e prejudicou-nos a todos na entrada para a Universidade em 4 valores. Administração Pública era a nossa disciplina nuclear que contava para a média para a entrada na Universidade.
Ao ver a capa do CM de hoje sou obrigado a concluir com tristeza que mais de vinte anos passados que a situação continua. Já é tempo dos responsáveis pela educação em Portugal se debruçarem sobre este problema que afecta a grande maioria dos estudantes Portugueses. Todos sabemos que a educação em Portugal nunca foi a melhor, mas se queremos ter um Portugal desenvolvido e orgulhoso de si próprio só o podemos ter quando se investir a sério na educação e parar com os remendos que se têm feito desde o 25 de Abril. São precisas melhores escolas, professores com formação contínua e que se interessem em não ser apenas professores mas também educadores, que é isso que por vezes é o mais importante. Há muitos alunos com problemas familiares que precisam de alguém que os escute e que os acompanhe. Além da matéria que naturalmente tem de ser dada, são precisos professores que sejam amigos dos alunos e que se interessem pelos seus problemas e dificuladades. No que me toca, tenho muito orgulho em ter um irmão que é professor secundário e que está constantemente a investir o seu tempo, interesses e dinheiro na formação dos seus alunos.
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Na edição de hoje do Portugal Diário:
Lembra-se de quanto custava a vida antes da revolução de 1974? Ainda é do tempo em que um pão custava quatro tostões e um café apenas 14? Caro na altura só a gasolina, que custava 7$50 centavos. Mas os carros até pareciam em conta: um automóvel com 1000 cc ficava por 65 contos e um BMW 2002, também novo, custava perto de 100 mil escudos.
Os professores recebiam no final do mês cerca de três contos e quinhentos. Um docente efectivo podia chegar aos sete contos por mês. Uma quantia razoável, se pensarmos que o aluguer de uma casa nova custava cerca de dois contos.
Barato ficava também uma ida ao cinema: apenas cinco escudos. O bilhete mais caro chegava à quantia de 7$50. O mesmo custava tomar um bom pequeno-almoço no café da esquina, com direito a sumo de laranja e croissant com fiambre. Já fumar era vício que ficava barato. Um maço de SG Gigante custava 6$50.
No Ultramar, durante a guerra, os vencimentos eram francamente superiores: um capitão do Exército recebia 14 contos e um alferes mais sete contos e quinhentos.
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